A NACIONALIZAÇÃO DO MILLENIUMBCP

O Estado Angolano, através do seu fundo soberano, a Sonangol, assumiu com notável maestria o controlo do BCP. O próximo aumento de capital de Junho consolidará essa posição. Serão, no entanto, necessários mais cerca de € 3.5 mil milhões de capital o que tornará indispensável uma parceria do Estado Português com o Estado Angolano

Controlo da Sonangol

A assembleia Geral do BCP que se realizou esta semana consagrou o efectivo controlo do MilleniumBCP pela Sonangol. Chegou assim ao fim a desastrosa luta de poder que se desenrolou na sucessão do Fundador Jorge Jardim Gonçalves. Numa sucessão de golpes e contragolpes foi-se destruindo valor de forma massiva até à exaustão, de tal forma que a Sonangol assume agora o poder sem nenhuma oposição. Pelo contrário, devemos todos dar graças a que haja uma entidade com capacidade financeira para investir no BCP os capitais necessários.

Sinal dos tempos e de que, afinal, se terá aprendido alguma coisa com a desastrosa luta de poder em “reality show” levada a cabo por aprendizes de feiticeiro, aconteceu, desta vez, uma duríssima batalha de poder fora dos media.

O vencedor claro foi António Monteiro (representando a Sonangol) fazendo jus às suas extraordinárias qualidades de diplomata. O evidente derrotado foi Carlos Santos Ferreira mas deve salientar-se que soube defender a instituição desenvolvendo a batalha no recato dos gabinetes.

Veja-se a dimensão da derrota. O centro de gravidade nos Órgãos Sociais do BCP passa claramente do Conselho Executivo (Presidido por Santos Ferreira) para o Conselho Geral e de Supervisão (Presidido por António Monteiro). A composição do CGP alterou-se drasticamente a começar na saída de Luís Champalimaud – aliado histórico de Santos Ferreira – mas também nas mudanças de representação, como no caso de Stanley Ho. No seu conjunto, Carlos Santos Ferreira perdeu larga influência no Órgão que tem agora poderes para exonerar membros do Conselho Executivo.

É certo que a nomeação de uma pessoa mais ligada à Sonangol não altera o controlo de Santos Ferreira sobre o Conselho Executivo, mas este Conselho assume agora mais as funções de uma Comissão Executiva que reporta ao Conselho de Administração. A meu ver, isto representa uma descida de patamar do Presidente do Conselho Executivo e foi aliás por isto que Paulo Teixeira Pinto desenvolveu toda a luta de poder com Jardim Gonçalves.

Seja como seja, está finalmente clarificado quem manda e isto deve, sem dúvida, ser saudado. A Sonangol é a larga distância o maior accionista do BCP e será ainda maior relativamente aos restantes que irão sendo diluídos com o aumento de capital em curso e os que virão. Controlando o Conselho Geral e de Supervisão, este com poderes reforçados, está estruturada a cadeia de comando.

O aumento de capital

O aumento de capital milagreiro que será concretizado até Maio foi, obviamente, o pano de fundo essencial para a assumpção de controlo da Sonangol. Tenho como certo que a Sonangol prestou contra garantia aos bancos internacionais que tomaram firme a operação de aumento de capital e, assim, o fizeram sem risco. Foi esta a “arma” decisiva, em minha opinião, na dura luta de poder com Santos Ferreira.

Como é conhecido o aumento de capital faz apelo em primeira instância à conversão de dívida subordinada. Como se verá é um caminho com riscos sérios pois o perfil de investidor que tomou esta dívida é de rendimento fixo e que tenderá a vender as acções na conversão. Este “ flow-back” vai criar uma fortíssima pressão vendedora nas acções e, na minha avaliação, o preço cairá significativamente. Todo este processo terá um enorme potencial para gerar litigância. Desejaria que o que começou por ser apelidado de milagre não acabe em sonho mau.

Os desafios antigos

Na “Mou language” vamos apelidar os problemas graves de desafios e dizer, então, que o MilleniumBCP enfrenta desafios antigos importantes. Estes desafios antigos foram, em larga medida, herdados por Carlos Santos Ferreira mas não tiveram também grande “apport” nos últimos três anos. Refiro-me à forte insuficiência do Fundo de Pensões, à debilidade dos fundos próprios, às imparidades de crédito não reconhecidas e à baixa rentabilidade da banca doméstica.

Este conjunto de itens poderia ser larguissimamente explanado, mas sumariam-se numa breve conclusão. O BCP não tem gerado e tudo indica que não vá continuar a gerar resultados suficientes para cobrir os “gap” de fundos próprios. Isto significa que o aumento de capital em curso (colocando ceteris-paribus o tier I em cerca de 8.5%) vai ser claramente insuficiente para fazer face a este conjunto de desafios. É certo que já se foi deixando cair nos media que há mais cerca de mil milhões de euros de subordinadas para converter em capital. As consequências na diluição e na queda de preço pelo mecanismo de “flow-back” serão então ainda mais significativas.

Desafios novos

Por desafios novos designo questões inteiramente originadas nos últimos três anos e, a meu ver, são essencialmente duas. A questão Grécia e os problemas agudos de liquidez.

Evidentemente que quando Carlos Santos Ferreira assumiu a Presidência do Conselho Executivo do BCP já existia um banco na Grécia. O problema é que nessa altura vários accionistas, entre os quais eu próprio várias vezes, aconselharam Santos Ferreira a vender o banco na Grécia, mas sem êxito. O banco Grego, na altura, poderia ter sido vendido com mais-valia mas, certamente por boas razões nunca explicadas, a opção foi por manter este activo.

Uma decisão, infelizmente, desastrosa. O BCP tem uma exposição global na Grécia de cerca de € 7 mil milhões (dos quais cerca de € 4 mil milhões em dívida soberana) e sobre a qual, desgraçadamente, vai ter que fazer um pesado “write-off”. Os operadores internacionais, neste momento, estimam que o “hair-cut” na Grécia será de 50 a 70 % do valor dos activos. Isto significa que não se possa excluir para uma instituição financeira com operação local uma perca completa do activo. Será difícil, no entanto, que o BCP não tenha que provisionar eventualmente € 3 a 4 mil milhões, como mínimo.

O outro desafio novo tem a ver com agudos problemas de liquidez.

É bem verdade que quando Carlos Santos Ferreira assumiu a liderança já havia dificuldades com a liquidez do BCP. Quero mesmo crer que este facto não foi alheio à “surpreendente” decisão de Constâncio de inibir no vazio a equipa de Filipe Pinhal. Mas o problema complicou-se, e de que maneira, nos últimos três anos.

A alavancagem de balanço continuou a nível extremamente elevado, a dependência dos mercados internacionais no funding enorme e como resultado o BCP tem de ser financiado em € 15 mil milhões pelo Banco Central Europeu. Evidentemente uma boa parte deste apoio do BCE está ligado à operação na Grécia.

Além deste importante financiamento do BCE, o BCP está a ter acesso `a “ELA- Emergency Liquidity Assistance” do Banco de Portugal, com colateral de baixa qualidade, de montante nunca confirmado mas que se estima seja superior a € 5 mil milhões.

O próximo aumento de capital

Os desafios atrás enunciados, traduzidos num “stress test” sério, desembocam necessariamente na necessidade de um massivo aumento de capital adicional. Para além dos cerca de € 1,2 mil milhões que serão captados até Junho estimo que seja necessário captar, no mínimo, cerca de €3.5 mil milhões.

Quem tem €3.5 mil milhões adicionais para investir no BCP?

A nacionalização plena

Admitindo o recurso aos mil milhões de subordinadas ainda possíveis após a presente conversão, será ainda necessário captar € 2.5 mil milhões de capitais.

A venda de activos com mais-valia para gerar capital seria uma via sendo que a venda da operação polaca pode ajudar. No entanto será uma via claramente insuficiente.

A meu ver, o indispensável aumento de capital adicional será aportado pela Sonangol e o Estado português e eventualmente um ou outro dos actuais accionistas com nova configuração, nomeadamente na ligação à China.

Os accionistas do BCP que no consulado Teixeira Pinto eram detentores de um património de € 15 mil milhões, estão hoje reduzidos a € 2.5 mil milhões e, se analiso correctamente, caminham aceleradamente para a extinção.

A destruição massiva de valor no BCP porventura sem paralelo na nossa historia económica mais não é do que um “case study”da ascensão e queda do sonho de um Portugal rico, representando bem a infeliz Historia de todos nós.

Advertisements
Gallery | Esta entrada foi publicada em Sem categoria com as etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , . ligação permanente.

3 respostas a A NACIONALIZAÇÃO DO MILLENIUMBCP

  1. Antonio Almeida diz:

    Caro Dr Joao Rendeiro
    Dediquei a maior atençao,ao seu artigo de opiniao em 4 de novembro de 2010 no jornal I,O DEFAULT INEVITAVEL,o qual 5 meses depois se aplica perfeitamente a realidade vivida em Portugal.
    Tenho sido um leitor atento do seu blogue e como tal tenho extraido deduçoes da situaçao na banca.
    Queria fazer lhe as seguintes perguntas:
    1-O Bpi apresentou agora os resultados do primeiro trimestre de 2011,onde anunciou a utilizaçao nula de fundos ao BCE,contrastando os 1000 milhoes em finais de 2010.Sera que depois da apresentaçao destes resultados mantem a sua opiniao,expressa em janeiro de 2011 no seu artigo”O aumento de capital do BPI”?
    2-No artigo de ontem 27/4/2011,”A nacionalizaçao do Millenniumbcp”diz que a exposiçao deste banco a divida soberana grega e de 4 mil milhoes,no entanto o Presidente Dr CSF anuncia 700 milhoes.Sera que perante estes valores a sua opiniao muda alguma coisa em relaçao as conclusoes finais?

  2. Pedro Lisboa diz:

    O BCP já não sobrevive com resultados positivos sem o BCE,
    Um simples exercício prova isso: BCP tem 14,7 mil M de Eur de emprestimos de curto prazo do BCE, à taxa de juro de 1%. Este valor corresponde a cera de 20% do valor de crédito total concedido a clientes.
    É de acreditar que, atenta a média ponderada de margem financeira obrtida no 1ºT/2011, que o BCP acrescente uma média de 3% ao ano concedendo credito com esses 14,7 mil M de Eur, ou seja “comprando” a 1% para “vender” a 4%. E então 14,7 mil M de Eur x 3%/4 trimestres = 110,3 M de Eur, que liquidos de impostos dão 79,9 M de Eur, ou seja um valor superior ao lucro obtido pelo BCP no 1ºT2011.
    De resto, BCP beneficiou ainda dum ganho de cerca de 25 M de Eur em activos para venda.

    Por isso, o BCP já não é rentável sem a ajuda expressiva do BCE, e está prisioneiro dessa ajuda, para atingir a rentabilidade positiva insustentável actualmente sem o BCE. Ora este não é o cenário no BES nem no BPI. Por isso BCP tem risco comparativamente muito elevado neste momento.
    Neste contexto é fácil perceber que o BCP é o maior candidato dos bancos privados a poder vir a ser nacionalizado.

  3. FTM diz:

    A bem das restantes IF’s domésticas, dos depositantes, dos contribuintes e dos próprios accionistas, o MBCP deveria ser conduzido a um desmatelamento controlado. Parece óbvio que já não é economicamente viável. O buraco na Grécia é tremendo. Em Portugal também não deverá ser pequeno. Vender o único activo com potencial decente para o crescimento futuro – Polónia – será seguramente o fim da instituição. Qualquer capital que seja injectado não será mais do que “throwing good money after bad”. Seria por isso desejável que o BCE e o BdP juntamente com as principais IF’s domésticas chegassem a um acordo de partilha de activos de modo a salvaguardar os depositantes e o fundo de garantia de depósitos, impondo o menor nível de perdas possível aos accionistas. Parece-me o mais próximo duma solução “win-win” para os vários stakeholders do MBCP. Qualquer outro cenário será mais do que previsivelmente uma solução “lose-lose”.
    PS-a quem atribui qualquer significado aos valores reportados no final do trimestre, recomendo apenas que relembre que o balanço é uma fotografia estática num momento específico. Seguramente que nas vésperas do fecho de Março, a situação era dramaticamente distinta da reportada em matéria de recurso ao BCE.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s