Tsunami em Portugal

Todos assistimos às trágicas e devastadoras imagens do tsunami do Japão e suas sequelas. Espanta o efeito devastador e instantâneo que a força das águas exerce sobre tudo à sua passagem. Num ápice tudo é destruído e a força das imagens faz notícia mundial.

Infelizmente, o que está a acontecer em Portugal terá efeitos muito superiores aos de um tsunami e não arrebatará os corações nem os média do Mundo. Um tsunami arrasa uma região, o que está em curso em Portugal afectará seriamente 10 milhões de portugueses – todo um país.

Não obstante, não haverá cobertura mundial dos média porque não haverá “foto oportunity”, será o desenrolar no tempo – em muitos anos – de uma terrível travessia no deserto que já está a atingir,  mas atingirá  ainda muito mais os nossos concidadãos.

Não sou historiador económico mas avalio que terão existido muito poucas circunstâncias históricas onde cumulativamente se juntem os seguintes fenómenos:

-forte subida no preço do petróleo e seus impactos deflacionistas;

-subida das taxas de juro num ciclo ora iniciado pelo BCE com seus impactos deflacionistas;

-forte subida das commodities, em particular das alimentares, com o seu impacto na inflação pressionando a cesta básica das famílias;

-programa  EU/FMI com forte desvalorização interna implicando necessariamente uma forte contracção da despesa pública, descida nominal de salários na função pública e forte subida de desemprego.

A conjugação destes quatro factores em curso criará, por sua vez, uma espiral viciosa negativa amplificando ainda mais esses efeitos,  terminando necessariamente em eventos de crédito no sistema financeiro.

Como triste cereja no topo do bolo temos uma classe política em total negação,  alheia à  discussão dos gravíssimos problemas enunciados, unicamente preocupada em marcar pontos num palco interpartidário que o cidadão comum não entende.

Num momento dos mais críticos da nossa Historia, quando mais precisaríamos de liderança política para unir o país para enfrentar estas pesadas dificuldades é justamente quando, também aqui, temos o mais pesado deficit.

Por mim não tenho dúvidas de que, neste quadro, haverá default soberano de Portugal. A questão que se coloca é se,  sendo assim  como “end game”, o programa de austeridade não deveria ser aliviado.

 

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Uma resposta a Tsunami em Portugal

  1. FTM diz:

    Vim ao seu blog verificar se tinha acrescentado algum comentário novo e em particular verificar se teria escrito algo sobre o cenário de default. É com agrado que constato que sim embora o texto fique muito aquém do que esperava. A meu ver o default (acompanhado duma moratória) é a única solução razoável. Não é sustentável prosseguir um programa de austeridade que vise sustentar o insustentável peso da dívida actual especialmente com o galopante custo associado. Acho que a referência do haircut será o critério de Maastricht ou seja colocar a dívida em 6o% do PIB. Mas primeiro é necessário apurar convenientemente numerador e denominador do rácio para só então definir o haircut a aplicar à dívida pública. Apurar a dívida total será ainda assim a parte mais fácil do exercício. Já quantificar o PIB real…parece mais complicado. E no meio disto tudo há uma bota para descalçar: como nacionalizar a banca portuguesa num cenário destes? É cada vez mais óbvio que os “grandes” bancos privados portugueses vão acabar nas mãos do Estado. Não vai haver aumentos de capital para ninguém por muito que o FMI grite alto e bom som que os rácios actuais são insuficientes.
    Simultaneamente temos de criar um plano de despesa pública que gere superávites de pelo menos 2% ao ano durante uma década para restaurar a credibilidade nos mercados. Vamos ter muitos cortes pela frente e muita gente vai ter mesmo de trabalhar e pagar os seus impostos. A este propósito não posso deixar de chamar à atenção para as escandalosas estatísticas divulgadas recentemente pela DGCI. A fuga aos impostos é assustadoramente elevada. Há muito a melhorar na cobrança. Claro que simplificando o complexo código fiscal que temos ajudaria muito na tarefa. Mas isso representaria um atentado a certos interesses que se protegem demasiado bem.

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