Barroso e Trichet não querem a verdade

Informa a imprensa portuguesa, nomeadamente o Expresso, que o Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, e o Presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, exerceram a sua influência para que em Portugal não se faça uma auditoria às contas públicas de 2010. Nessa sequência o Banco de Portugal fez saber que não estaria disponível para levar a cabo tal auditoria, contrariamente ao que fez há seis anos quando José Sócrates ganhou as eleições.

Estas notícias deveriam causar a maior perplexidade mas parece que todos acham normal. É bem verdade que o Sr.Trichet, para utilizar a linguagem da época, está à rasca porque emprestou mais de € 60 mil milhões a Portugal e quer empurrar com a barriga para que outros fiquem com o problema. Por sua vez, o Banco de Portugal sob a batuta de Constâncio foi instrumentalizado pelo novo poder socialista e fez um serviço que não deveria ter feito na auditoria de há seis anos.

Mas então o Banco de Portugal não é a mesma instituição? Das duas uma: ou o Banco de Portugal em nome da coerência e independência face ao poder político faz a auditoria ou terá que pedir públicas desculpas pela instrumentalização a que se sujeitou.

E Durão e Trichet? Bem, a perplexidade não pode ser maior. Afinal, o que mina mais a confiança: saber a verdade por muito má que seja ou que se saiba que querem ocultar a verdade por terem medo dela? É certo que a verdade sobre Portugal é muito má, com o deficit de 2010 superior a 8.5% e a dívida PIB superior a 120%, mas de que serve ocultar a verdade?

E justamente porque os mercados financeiros internacionais não acreditarem na história que lhes contam, quer sobre o estado real dos bancos quer sobre as finanças públicas de Portugal, que votam com as mãos e fizeram “delete” para qualquer financiamento ao nosso país.

Dizer a verdade sobre as finanças públicas é assim a única via para restaurar a confiança. Aliás, alguém imagina que Durão Barroso e Trichet pudessem fazer telefonemas similares a Rainha de Inglaterra ou Mervyn King, ou ao Presidente da Alemanha ou a Axel Weber ou ao Presidente do Senado dos EUA ou a Barack Obama? É completamente inconcebível e ainda mais inconcebível que pudessem aceitar a diligência.

A questão no entanto, a meu ver, vai muito para além do problema de princípio, em si mesmo muito importante. A questão tem a ver com a estratégia que deve ser seguida para negociar a dívida portuguesa.

Deve continuar a estratégia que José Sócrates está a seguir, basicamente negando o óbvio problema, ir adiando a solução, ir pagando juros cada vez mais exorbitantes e tomando medidas de austeridade “à lá FMI” sem FMI? O serôdio bom aluno Sócrates está disposto a tudo, só que se não diga que foi ele que chamou o FMI. Este é o caminho do que Irving Fisher há muito tempo apelidou de “dívida deflacionada”, ou seja, por mais austeridade que exista, no final a dívida será maior do que no início.

Ou deveria seguir-se estratégia alternativa? Basicamente, terá radiografia exacta da situação quer no sistema financeiro, quer nas finanças públicas e concluir num programa de repartição de sacrifícios entre o devedor (os portugueses) e os credores (BCE e bancos portugueses e estrangeiros). Porque, tem que ser dito, se Portugal se endividou em excesso os credores também emprestaram em excesso, sem cuidarem adequadamente dos riscos que estavam a tomar. Para mim é muito claro que os credores devem participar numa solução.

Dito por outras palavras, os políticos portugueses que perceberem que têm uma margem de manobra perante o Sr.Trichet muito superior a que o bom aluno Sócrates tem apresentado perante a Sra. Merkel, serão, a meu ver, os ganhadores do cenário futuro.

Anúncios
Galeria | Esta entrada foi publicada em Sem categoria com as etiquetas , , , , , , , , , , , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s