O ERRO DE JOSÉ MOURINHO

Sou um fã incondicional de José Mourinho de tal sorte que aos fins-de-semana tento nunca perder um jogo do Real Madrid. A carreira deste português enche-nos de orgulho e dá-me um prazer infinito assistir ao seu êxito continuado contra rivais dentro e fora dos relvados.

Não obstante, penso que José Mourinho errou ao aceitar ser a “cara” da nova campanha do MilleniumBCP. As razões porque terá aceitado serão certamente de ordem financeira mas, quero crer, também de ordem relacional face a uma instituição de referência no seu país.

Embora o contrato tenha sido relevante – a imprensa reporta € 1 milhão (espero que líquidos), não tem peso decisivo no portfolio de Mourinho SA. Este contrato, na minha avaliação, não representará mais de 5% do seu volume anual de negócios colocando por maioria de razão a pertinência do risco assumido.

De facto, puxando um pouco pela memória não será necessário recuar mais do que 2007 para ver fotografias de Luís Figo e José Oliveira e Costa a assinar um contrato de imagem com o BPN, justamente nas vésperas dos tristes problemas que todos conhecemos. Parece evidente que Luís Figo foi mal aconselhado na altura e, em minha opinião, salvando as radicais diferenças dos dois casos, penso igualmente que o conselho que alguém terá dado a José Mourinho não foi o melhor.

O MilleniumBCP tem um enorme conjunto de desafios – para utilizar a linguagem da campanha publicitária – que porventura recomendaria que se resolvessem primeiro. Vejamos alguns dos principais sem ser exaustivo.

O principal, a meu ver, é a exposição à Grécia. Como é conhecido, o MilleniumBCP tem um banco na Grécia, o que significa que estando os mercados internacionais fechados aos bancos Gregos e Portugueses, o MilleniumBCP tem que apoiar a liquidez de dois bancos. É neste contexto que, segundo dados do BIS em Basel, o MilleniumBCP tinha uma exposição, no final de 2010, de cerca de USD 10,7 mil milhões à Grécia de dívida soberana e bancária.

A esmagadora maioria dos analistas internacionais considera que terá, cedo ou tarde, que haver um “hair-cut” sobre os activos Gregos. Se considerarmos um desconto de 30%, que me parece bastante conservador no caso, temos uma noção do desafio de balanço que o MilleniumBCP tem pela frente só nesta questão.

O segundo grande desafio tem a ver com a liquidez do banco. Fruto de um grau muito elevado de transformação de depósitos em crédito herdado da gestão de Alípio Dias e da necessidade de apoiar o banco na Grécia, o MilleniumBCP tem tido dificuldade em baixar o recurso ao Banco Central Europeu. O banco informou o público que está a recorrer ao BCE no montante extraordinariamente elevado de € 15 mil milhões. Além disso, o MilleniumBCP estará também a recorrer à “Emergency Lending Facility” do Banco de Portugal num montante muito elevado.

No seu conjunto, estes apoios de liquidez são cheios de desafios pois não se podem considerar permanentes. O BCE, claramente, está a ficar nervoso quanto à falta de alternativas para o seu apoio, o que poderá ser ainda mais agravado no contexto da dinâmica da dívida soberana de Portugal.

O terceiro grande desafio tem a ver com a rentabilidade do banco. Veja-se este pequeno exercício. Um spread de 3% aplicado aos € 15 mil milhões fornecidos pelo BCE dariam € 450 milhões – um valor muito superior aos resultados anuais do MilleniumBCP no ano de 2010. Isto significa que se pode inferir que retirando o referido apoio de tesouraria toda a operação consolidada do MilleniumBCP daria resultado negativo. Isto para não falar da mais-valia não recorrente da venda da actividade seguradora. Uma das questões mais problemáticas estará nos spreads do crédito imobiliário – aliás uma questão geral da banca portuguesa.

O quarto importante desafio tem a ver com a qualidade do balanço. Apesar dos esforços já feitos restam importantes questões de imparidades – também comuns à banca portuguesa, que continuarão a ser nos próximos anos travão ao crescimento dos resultados.

Finalmente, o desafio porventura mais complexo. Refiro-me à frágil estrutura accionista, onde a Sonangol parece ser o único interlocutor com meios financeiros para acorrer a um inevitável aumento de capital. Como se sabe, o TIER I está a cerca de 7,5 e juntando as debilidades de liquidez e rentabilidade com a subida internacional do patamar mínimo de TIER I para as zonas dos 9/10 ou mesmo mais, vemos o que se avizinha. Certamente a venda da operação Polaca poderia dar uma ajuda mas insuficiente.

Quem vai acorrer a um tal aumento de capital? Uma combinação de Sonangol com um banco Chinês? E os actuais accionistas aceitarão ficar irremediavelmente diluídos – eles que conduziram a guerra pela mudança de regime? Como verá a Sonangol a cristalização de uma perda massiva e a necessidade de aportar meios adicionais de grande porte mesmo para uma instituição da sua dimensão? A dimensão do problema poderá ser tal que coloque dificuldades nas relações Estado a Estado?

Como se vê por esta ilustração, o MilleniumBCP tem, na verdade, um importante conjunto de desafios. Não obstante a minha avaliação global, gostaria de estar enganado e que o MilleniumBCP superasse esses desafios, quanto mais não fosse por José.

 

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2 respostas a O ERRO DE JOSÉ MOURINHO

  1. Pedro Lisboa diz:

    O balão de oxigénio de 15 mil milhões de euros do BCE que o BCP tem é de curto prazo e mais tarde ou mais cedo acaba.
    O nervosismo em Frankfurt já começa a transparecer e com a ameaça da subida das taxas de juro para se controlar a inflação,as coisas irão ficar feias para o BCP.

  2. Joao diz:

    Já agora não quer indicar uma data para a nacionalização do BCP?
    Sinceramente, podia disfarçar um bocadinho mais esse orgulho ferido e tratar as coisas de uma forma um pouco mais imparcial, senão soa a “repetição de cantiga”.
    Curioso por exemplo é que na análise que fez ao BPI a questão da qualidade do balanço (das melhores do mercado!) era um pormenor. Neste caso, torna-se um dos principais factores (porque é bem mais frágil, já interessa abordar…).

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