Jornal de Negocios engana-se nos emprestimos do BCE

Um exemplo do rigor com que o Jornal de Negócios trata a análise financeira está na notícia da edição on-line “Passos Coelho engana-se nos emprestimos do BCE

Segundo os magníficos analistas do Negócios dos € 60 mil milhões emprestados pelo BCE a Portugal só € 18 mil milhões seriam dívida pública.

Para além do Negócios não ter sido, de longe, a primeira entidade a falar sobre a matéria, cumpre esclarecer que não está publicado pelo BCE  o montante de compras de dívida pública portuguesa. O que existe são estimativas de vários Bancos sendo que o Negócios publica a de um deles. As estimativas que conheço vão de € 18 mil milhões do BNP até € 25 mil milhões da Goldman Sachs.

Mas o problema maior não é este, está na infinita ignorancia do jornalista ao não saber que os restantes € 40 mil milhões têm um colateral de títulos elegíveis, em larga medida dívida pública portuguesa. Isto é, como é óbvio, quando os bancos sacam cash do BCE entregam títulos de uma lista de “títulos elegíveis”, à cabeça dívida pública. Portanto, o total de compra de dívida pública portuguesa é o montante directo mais o montante descontado nos “repo” dos bancos.

Em resumo, quando Passos Coelho falou em € 60 mil milhoes não andava muito longe da verdade, bem mais perto aliás do que o Jornal de Negócios.

Outra questão que Passos Coelho não abordou mas o Negócios poderá ainda tratar é o que acontecerá numa eventualidade dos bancos não poderem pagar os € 40 mil milhões ao BCE.

Anúncios
Galeria | Esta entrada foi publicada em Sem categoria. ligação permanente.

4 respostas a Jornal de Negocios engana-se nos emprestimos do BCE

  1. Miguel diz:

    Obrigado João, pelo seu esclarecimento. Eu teria engolido a seco a notícia do Jornal de Negócios e teria ficado a pensar que o Dr. Passos Coelho mais uma vez teria cometido uma gaffe. É incrível como se pode manipular a informação e enganar as pessoas.
    Um Abraço,
    Miguel.

  2. Miguel diz:

    Desculpe João, mas voltei a ler o artigo. E que grande questão você coloca no fim. Mas será que alguém da nossa praça se vai atrever a tocar no assunto?
    Atentamente,
    Miguel.

  3. Pedro Lisboa diz:

    «Outra questão que Passos Coelho não abordou mas o Negócios poderá ainda tratar é o que acontecerá numa eventualidade dos bancos não poderem pagar os € 40 mil milhões ao BCE».
    Se este eventual cenário vier a ser uma realidade … só nos resta acender uma vela à N. Senhora de Fátima e pedir um milagre.

  4. FTM diz:

    Relativamente à questão lançada, assim de repente vejo como hipotéses:
    – Um Sov.Wealth Fund Angolano ou Chinês
    – Um/uns banco(s) europeus (espanhóis, alemães, franceses)…é ver quem tem mais a perder com um default para prioritizar os candidatos
    – Nacionalização com suporte de fundos externos
    Acho obviamente que a questão não é académica. O negócio bancário em Portugal não tem um futuro animador. Vejamos o que tem pela frente (sem olhar a hierarquizações):
    – o “fim da titularização de créditos”
    – dependência extrema do mercado doméstico por falta duma estratégia de diversificação e crescimento internacional
    – a quebra na actividade económica em particular do grande factor da última década (imobiliário)
    – a parede dos incumprimentos com que ameaça esbarrar
    – as deficiências de capitais próprios
    – as estruturas accionistas
    Cumps

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s