ANATOMIA DA CRISE DE 2008

O Congresso dos EUA, aprovou em Maio de 2009, uma resolução dando plenos poderes à “Financial Crisis Inquiry Commission”.  Esta Comissão, com poderes judiciais, foi constituída na linha da importante Comissão Pecora que examinou e propôs recomendações sobre a Grande Crise dos anos 30. A FCIC, presidida por Phil Angelides, acaba de publicar o seu relatório final www.fcic.gov/report

Ao longo das suas cerca de 600 paginas o relatório faz uma análise muito rigorosa e abrangente da crise financeira que implodiu em 2008. Recomendo a leitura do relatório e, como introdução, sintetizo as suas conclusões.

1. A crise financeira de 2008 não deriva de um desastre natural que não pudesse ser evitada. Os sinais amarelos multiplicaram-se, mas os actores principais olharam para o lado e não os leram ou quiseram ler. A falha maior, entre estes actores, foi a Reserva federal Americana (FED) por não ter posto travão ao crescimento exponencial do crédito hipotecário tóxico.

2. Múltiplas falhas nos reguladores e supervisores tiveram implicações devastadoras na estabilidade dos sistemas financeiros. Ocorreu um processo ao longo de mais de 30 anos de desregulação tendo Alan Greenspan como ideólogo chefe (mas fortemente propalado pelo lobby de Wall Street também), que levou à anulação sucessiva de esquemas regulatórios que poderiam ter sido cautelares na regulação do sistema.

Não obstante, o relatório conclui que os reguladores tinham poderes mais do que suficientes para actuar se assim decidissem como, entre outros é o caso do FED de Nova York que poderia ter travado os excessos do CityGroup

3. Verificaram-se graves falhas de “corporate governance” e “risk management” em instituições financeiras sistemicamente chave. Contrariamente à perspectiva dos adeptos da desregulação, o instinto de preservação não prevaleceu na gestão das instituições financeiras. Pelo contrário, verificou-se uma corrida à tomada de mais risco, com menos capital e “funding” de curto prazo ou mesmo “overnight”. Como exemplo, o CEO do CityGroup no seu depoimento à Comissão disse que hipotecas imobiliárias (que se revelaram tóxicas) de USD 40 mil milhões “…. not in any way excited my attention”.

4. Factores como a alavancagem excessiva, excesso de risco nos investimentos e falta de transparência de muitas estruturas de investimento (que muitas vezes muitos investidores nem sequer compreendiam), colocaram o sistema financeiro numa rota de colapso. Por exemplo, o rácio de “leverage” dos bancos de investimento era de 40 para 1. O Bear Sterns em 2007 tinha capitais de USD 11,8 mil milhões, dívida de USD 383,6 mil milhões e USD 70 mil milhões de “overnight funding”.

Por sua vez, dificultando a percepção das realidades, a alavancagem estava opaca, “encoberta”, fora do balanço e com forte “window dressing” nos relatórios oficiais. Os reis deste processo foram duas instituições para-públicas Fannie Mae e Fredie Mac com rácios de alavancagem de 70 para 1.

Desenvolveu-se o chamado “shadow banking system” composto, por exemplo, pelo mercado de repo, pelos gigantescos SIV (Special Investment Vehicles) e pelos derivados de balcão (OTC) – como os CDS (Credit Default Swaps), que no seu conjunto atingiram dimensão superior ao do próprio sistema bancário americano.

5. O Governo estava mal preparado para responder à crise e a inconsistência das respostas criou ainda mais incerteza agravadora da situação.

Por exemplo, ainda no verão de 2007 o Presidente do FED, Ben Bernanke, e o Secretário do Tesouro, Henry Paulson, fizeram repetidas declarações dizendo que os problemas do “subprime” estavam contidos. Dias antes do colapso do Bear Sterns o Presidente do SEC, Christopher Cox (entretanto demitido), mostrava-se tranquilo com os níveis de capital dos bancos de investimento. Só em Agosto de 2008, poucas semanas antes da intervenção forçada, o Governo tomou consciência da gravíssima situação financeira da Fannie Mae e Fredie Mac.

6. Houve uma quebra sistémica nos níveis éticos quer de operadores quer de clientes. Por exemplo, o percentual de “default” no crédito à habitação dobrou entre 2006 e 2007, o que significa que de forma massiva assumiram créditos pessoas que não podiam pagar; operadores originaram créditos que sabiam nunca seriam pagos e bancos estruturaram veículos de investimento sem viabilidade financeira que venderam a investidores.

7. O colapso nos “standard” de originação de crédito imobiliário e os erros na sua securitização foram aceleradores fundamentais no contágio e propagação da crise.

Grande parte da originação desconsiderou a capacidade de pagar dos tomadores de crédito. Por exemplo, em 2005, 25% do crédito hipotecário foi feito no regime “ interest only” e 68% dos créditos dos dois maiores operadores CountryWide e Washington Mutual basearam-se no regime de pouca documentação “no doc”.

O FED (e outros reguladores) tinham completo conhecimento destas más práticas, mas preferiram não actuar.

8. Os derivados de balcão (OTC) contribuíram de forma muito significativa para a crise. Em 2000 a Administração Clinton proibiu a regulação federal e estadual dos OTC, um momento chave na expansão prodigiosa destes produtos.

No centro da produção de OTC tóxicos (CDS- Credit Default Swaps, em particular) esteve a AIG, salva por uma injecção de USD 180 mil milhões pelo Governo americano. Por exemplo, a AIG vendeu CDS no montante de USD 79 mil milhões e a Goldman Sachs USD 73 mil milhões de CDO sintéticos.

9. As agências de rating foram eixos centrais neste processo de destruição massiva. A atribuição de rating AAA a veículos hipotecários foi essencial para a credibilização do processo. Por exemplo, entre 2000 e 2007 a Moodys atribuiu AAA a 45,000 veículos hipotecários e, por comparação absurda, a 6 entidades industriais. No ano de 2006, a Moodys deu AAA a 30 veículos hipotecários por dia.

Como resultado final, 83% dos veículos hipotecários AAA tiveram baixa de notação e muitos entraram em colapso. Ficou claro que as empresas de rating tiveram falhas fundamentais em organização, sistemas, governance e ética.

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