NEGÓCIOS DA CHINA E DAS ARÁBIAS

ou mais uma década perdida.

A dupla maravilha das Finanças, Fernando Teixeira dos Santos e o seu inefável secretário Costa Pina, têm sido os mordomos de serviço nos “road-show” internacionais da dívida portuguesa. Inauguram  a venda da dívida soberana em directo, apresentando a evolução das contas do Estado nas  emissões  televisivas via satélite. Não conheço outro Estado que faça assim .

Devo dizer que considero deprimente ver os líderes do meu país armados em “caixeiros-viajantes”, ainda por cima aceitando reunir-se com funcionários de terceira linha. Mas parece que a lógica do marketing político assim aconselha . É necessário passar à última fase da narrativa política, onde certos governantes, heroicamente, vão vencendo – semana a semana – o embate com os mercados financeiros e mantendo portas fora esse FMI.

A dimensão da dívida portuguesa

Ainda não entrou no discurso político e ainda menos nos nossos líderes de opinião um dado absolutamente essencial e que vou repetir. A questão da dívida portuguesa ao estrangeiro é essencialmente uma questão de dívida privada, e não de dívida pública, senão vejamos.

O total da dívida bruta de Portugal ao estrangeiro é de cerca de € 350 mil milhões. Evidentemente, a dívida líquida é bem menor (um pouco mais de metade daquele montante), mas não se pode fazer  uma análise, como por exemplo Marcelo Rebelo de Sousa, que é concentrar na dívida líquida apenas, pois o que nos é exigível não é a dívida líquida mas sim a dívida bruta. Para rigor absoluto de análise teríamos que considerar as maturidades respectivas e não tenho dúvida que a maturidade dos nossos créditos  ao estrangeiro é muito superior ao dos débitos. Daí a brutal pressão a que estamos sujeitos no curto prazo .

Nos € 350 mil milhões de dívida bruta ao estrangeiro, devemos considerar € 190 mil milhões de dívida dos bancos portugueses e € 100 mil milhões de dívida do Estado Português. Deve notar-se ainda que os bancos portugueses devem a curtíssimo prazo cerca de € 40 mil milhões ao Banco Central Europeu e cerca de € 10 mil milhões ao Banco de Portugal. Por sua vez, o Banco Central Europeu (BCE) através do SECURITIES MARKETS PROGRAM, comprou cerca de € 25 mil milhões de dívida pública portuguesa.

Evidentemente, o Estado português deve ao estrangeiro € 100 mil milhões (dos quais € 25 mil milhões ao BCE) o que não é pouco. Mas é importante ter o sentido das proporções e entender que a capacidade de crédito da república depende da percepção internacional da nossa capacidade de pagar a TOTALIDADE da dívida portuguesa – e não apenas a parte pública.

Porque, vamo-nos entender, se os bancos não conseguirem pagar as suas dívidas internacionais – nomeadamente ao BCE, estes montantes, mais cedo ou mais tarde, transformam-se em dívida da República. Foi esta nacionalização da dívida privada justamente que esteve na base do descalabro Irlandês. Nesse sentido, o Governo português deve sentir mesmo uma certa injustiça por lhe poder vir a cair em cima todo o peso de dívida que não criou.

A questão coloca-se, assim, em termos de solvabilidade de Portugal para além do tema da liquidez imediata. Dito de outra forma, tem ou não o país capacidade de pagar o conjunto de dívida publica e privada em stock. Uma esmagadora maioria dos economistas internacionais pensa que não.

O EURO E O INTERESSE  ALEMÃO

Um ponto fundamental para se centrar em cenários futuros é a reflexão sobre o futuro do euro e, para isso, devemos entender o Interesse Alemão.

Todos sabemos que a União Europeia é o menor múltiplo comum dos interesses nacionais. O Interesse Alemão em si mesmo tem sido muito claramente explicado pela Chanceler Merkel e pode ser sumariado por “ Deutchland A.G.” . Isto significa duas coisas.

Primeiro, a manutenção do euro é essencial para não dispor de uma moeda sobrevalorizada que pudesse destruir a competitividade das exportações alemãs. Se os países periféricos saíssem do euro ou, em alternativa,  se a Alemanha (e seus satélites) saíssem do euro o resultado final seria o mesmo – uma forte apreciação da moeda de troca alemã  (que se estima no mínimo  30%), com os impactos que se imaginam na máquina exportadora alemã. Em resumo, Ângela Merkel vai segurar o euro.

Segundo, minimizar os custos desta manutenção do euro numa política que Wolfgang Munchau apelidou de “responsabilidade limitada”. Por razões constitucionais e políticas, o Governo alemão tudo fará para reduzir ao mínimo o custo para a Alemanha das ajudas aos países sobre endividados. Daí as enormes resistências que têm sido feitas ao aumento da dimensão e natureza de intervenção do Fundo de Resgate Europeu.

No seu conjunto, a meu ver, iremos assistir a uma situação de “stop-go”, uma boa notícia seguida de uma má. O euro será para manter mas ninguém pense que se darão grandes facilidades aos países sobre endividados.

Em termos práticos, em conclusão, isto significara uma continuada tónica na austeridade para os países sobre endividados e um prolongado caminho do que Irving Fisher chamou de “dívida deflacionada”. Por outras palavras  Portugal estará em estagnação por outra década perdida com um profundo aumento do nosso atraso económico e agravamento das desigualdades sociais.

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Uma resposta a NEGÓCIOS DA CHINA E DAS ARÁBIAS

  1. Miguel diz:

    Estimado João,

    Excelente artigo. Dificilmente, encontro nos Jornais Económicos Portugueses opiniões tão esclarecedoras. Para mim é uma satisfação ler os seus artigos e ter acesso a este blog porque é um abrir de horizontes. Ainda bem, que existem pessoas como você com coragem para se expor e permitir que outras pessoas como eu, possam beber um pouco do seu conhecimento.
    Um Abraço,
    Miguel.

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