João Rendeiro responde a Miguel Sousa Tavares*

Miguel Sousa Tavares (MST), na sua crónica no Expresso do passado sábado, decidiu, uma vez mais, distinguir-me com a sua atenção, o que se vem já, aliás, tornando um hábito. Mas desta vez exagerou. E não me deixa alternativa senão exigir a reparação judicial do ataque que me fez.

Não é a primeira vez que MST entende atacar-me na praça pública usando e abusando do seu estatuto de opinion maker. É um tema tentador e populista nesta altura de crise. Tenho aliás a absoluta consciência que na conjuntura atual remo contra a maré. Graças a pessoas como MST, aos olhos de terceiros, porventura já não tenho bom nome. Mas o resquício de respeito que tenho por mim próprio exige que continue a remar.

Reconheço ao MST o direito a ter a sua opinião e a não gostar de mim. Mas também existe o direito à verdade, à honra e ao bom nome. E eu sei o que se passou no processo BPP. E não é como conta MST.

No seu texto do passado sábado, MST aborda duas questões. Começa por tecer considerações acerca do meu património, alegadamente escondido. Mas se MST se tivesse dado ao trabalho de ler o livro que editei e aparentemente tanto o incomoda, teria lido na página 235, no último capítulo, intitulado “O futuro”, o seguinte: “…O grosso do meu património será doado à sociedade e não herdado pela família. Tenho a convicção de que não faz sentido dar a terceiros toda a acumulação de valor que fiz ao longo dos anos”. Penso que com esta citação me permito encerrar comentários adicionais sobre a matéria.

Seguidamente, MST traça um paralelo entre a minha pessoa e a de Bernard Madoff, que, recorde-se, fez desaparecer cerca de 50 mil milhões de dólares, tendo os investidores que nele confiaram ficado a zero. E assim, de mim, diz, por exemplo: “…o mesmo que queimou o dinheiro e as poupanças de milhares de depositantes do Banco… Homens como João Rendeiro não fazem falta alguma ao país. Mas, antes de pregar para outra freguesia, deve prestar contas. É apenas isto que esperamos da justiça e em tempo útil”.

Paradoxalmente, concordo com MST. Para além de ter sido patrimonialmente o principal prejudicado da infeliz situação, sou também o principal interessado em que se faça justiça em tempo útil. Passados mais de dois anos sobre os acontecimentos, não foi, até hoje, deduzida contra mim qualquer acusação por nenhuma entidade. Encontro-me impedido de exercer direitos de defesa e de contraditório com base numa acusação inexistente.

O que existe, ao invés, são fugas seletivas de informação para os meios de comunicação, propalando meias-verdades misturadas com mentiras com vista ao protagonismo pessoal de alguns agentes da investigação. Os métodos aqui são exatamente iguais a muitos outros casos na justiça portuguesa: muita ‘notícia’, muito alarme social e resultados muito parcos.

No entanto, a própria dificuldade do Ministério Público em produzir uma acusação passados mais de dois anos talvez devesse levar MST a questionar-se um pouco mais. Apesar de todos os recursos de que está rodeado—acesso ilimitado a informação disponível no Banco e aos seus colaboradores, equipa de sete elementos a tempo completo, colaboração de ´arrependidos’ e amplo acesso aos meios de comunicação social — a acusação tarda em sair. E, estou em crer, nem mesmo MST acreditará que tal se fica a dever ao facto de o Ministério Público me querer proteger…

Todos os dias vou lendo na imprensa cenas dos próximos capítulos das minhas alegadas atuações. A última foi de uma burla que passaria pela minha apropriação de dinheiros do Banco, via Fundação Ellipse. As habituais fontes da informação colocaram uma notícia no “Diário de Notícias”, que deu manchete, segundo a qual eu teria 50 milhões de euros em obras de arte em casa. Apesar de esta absurda pseudonotícia ter sido desmentida no dia seguinte no “Público”, o caderno Atual do Expresso da semana passada assumiu-a como verdadeira sem qualquer tentativa de validação. E assim se constrói uma ‘verdade oficial’ mesmo em jornalismo dito de referência.

Mas também esta alegada burla vai naufragar e a montanha, porventura para tristeza de MST, vai parir um rato.  Uma auditoria efetuada por entidade credível e independente, pedida pelos legítimos donos da Ellipse, deixa inequívoco que não existe nenhuma burla e tudo se fez corretamente. Isto mesmo já foi comunicado ao Ministério Público, sendo a auditoria entregue nos próximos dias, segundo me foi comunicado.

Qual será a dificuldade da investigação? Não terá o Ministério Público recebido da CMVM um presente envenenado? Na sua ânsia de alijar responsabilidades por falhas de supervisão, a CMVM conseguiu, com a ajuda de um arrependido, classificar o caso BPP como “caso de polícia” em vez de “caso de supervisão”, com evidentes benefícios para a imagem de Teixeira dos Santos e Carlos Tavares. O problema é que, agora, não podendo o Ministério Público incriminar o arrependido — o verdadeiro autor material do crime não está sequer constituído arguido — vai ter de se arranjar alguma forma de responder ao alarme social produzido pelas fugas ao segredo de justiça emanadas da própria investigação.

A não ser que mais algum arrependido de última hora invente mais alguma coisa, as dificuldades em produzir uma acusação irão manter-se. E o tempo, para desgosto de MST e meu, vai passando.

MST não percebeu nada do que aconteceu, nem do que está a acontecer. Não obstante, do cimo da sua arrogância, produz sentenças. Todas transitadas em julgado. Claro.

*Artigo originalmente publicado no jornal Expresso em Dezembro de 2011

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4 respostas a João Rendeiro responde a Miguel Sousa Tavares*

  1. Definitivamente o Blogue do Dr. João Rendeiro agitou as águas do Jornalismo Nacional. Primeiro o Dr. Pedro Guerreiro dia 10/1 no Jornal de Negócios com o artigo “ O regresso de Rendeiro “ e agora o Dr. Miguel Sousa Tavares na sua crónica semanal resolveram presentear o antigo presidente do BPP com opiniões sentenciadoras.

    Devo dizer que aprecio e leio com regular e frequente consistência os textos destes intervenientes e é sempre com agrado que vejo nos seus artigos grande parte da minha própria opinião, pela clareza de ideias que exprimem e pelos temas que abordam.

    Não posso no entanto neste caso particular estar de acordo com estas intervenções por uma razão básica simples e objectiva.

    A presunção de inocência não pode ser uma mera extravagância legal que desejamos incondicionalmente para nós ao mesmo tempo que com base nas nossas opiniões a negamos aos outros.

    A este propósito gostaria ainda de tecer a seguinte consideração esquecida no tempo porque a memória é curta.

    Durante duas décadas a par de outras figuras o Dr. João Rendeiro foi um interveniente incontornável do Mercado de Capitais nacional.

    Corria o ano de 1987 quando se deu a hecatombe histórica conhecida como Crash de 1987.

    Hoje em dia qualquer investidor tem ao seu dispor centenas de fundos de investimento dos mais variados tipos feitios e metodologias.

    Em 1987 não era assim. Em 1987 existiam “três” fundos de investimento , o Fundo Invest , o Fundo Valor Mais e o Unifundo gerido pela equipa do Dr. João Rendeiro.

    Acontece que nas semanas subsequentes ao Crash e como forma de, segundo a versão dos mesmos,“ proteger o capital” dos subscritores, os primeiros dois, cancelaram os resgates, impedindo os subscritores de terem acesso ao seu dinheiro investido e vendo ruinosamente o seu capital a desvalorizar precipitadamente todos os dias o Unifundo do Dr. João Rendeiro , foi o único que se manteve aberto poupando as pessoas a um colapso de capital ainda maior.

    Esta é uma história que merece ser contada e recordada, porque a memória é curta.

  2. Carlos Cardoso diz:

    MST é já famoso pela imensa capacidade de opinar sobre o que não sabe,emprenhando
    pelos ouvidos e,fazendo uso do seu estatuto de opinion maker por conta própria,profis-
    são aliás muito na moda neste país,publica todo o género de verborreias como foi a que proferiu quando do rebentamento do caso BPP.Aos clientes chamou-lhes “jogadores de Casino”,negligenciando informar-se préviamente das circunstâncias em que estes
    depositaram as suas poupanças neste banco perfeitamente legal e “supervisionado” pelos reguladores Banco de Portugal e CMVM.Mais tarde,foi chamado à atenção e tentou corrigir o erro.Já era tarde.Tinha já prestado um maléfico serviço à justiça e
    à dignidade das pessoas que ofendeu.Mais valia que nunca tivesse aberto a boca!
    João Rendeiro será sempre o responsável,ainda que moral como reconhece.Mas o que dizer de um ministro das finanças,de um governador do Banco de Portugal e de outros responsáveis(serão mesmo?) que assinaram um aval de 450 Milhões de Euros para,de
    forma absolutamente descriminatória “resolver o problema” de meia dúzia de credores priveligiados,deixando os clientes entregues à sua sorte?A História provará quem foram os verdadeiros carrascos em todo este processo.A Justiça triunfará!

  3. Ricardo diz:

    Estimado João,

    O blog tem análises bastantes interessantes e pedagógicas. Tanto para pessoas com formação em Economia como para pessoas de outras áreas. Faço votos, que o seu blog se transforme numa referência de leitura, pela lucidez e pela qualidade das suas análises.
    Um Abraço,
    Ricardo.

  4. FTM diz:

    Como outsider de toda a “estória” do BPP, posso apenas garantir que o considero inocente até prova em contrário.
    Lamentavelmente, há pouca gente em Portugal capaz de pegar nesse tema e descasca-lo como deve ser. Não há jornalistas com experiência ou formação para o fazerem. Opinion makers tão pouco. O que há são oportunistas que mandam bocas infundadas ou mal-intencionadas apenas com o intuito de ganhar protagonismo. E claro, na sombra movem-se muitos interesses económicos poderosos, que com a complexa e manhosa promiscuidade de relações com os media nacionais, gerem a opinião pública a seu belo prazer.
    Resta-me agradecer os seus belíssimos artigos neste blog. De longe a melhor novidade na blogosfera nacional de 2011
    Cumpriementos

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